terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Banda do galo

Tem uma banda de rock na minha rua. Três casas para frente do lugar onde eu moro. É assim em todos os natais. Eles se reúnem e tocam rock. Da janela do meu quarto dá pra ouvir tudo. Inclusive dá pra sacar quais músicas eles mandam melhor. Eles estão tocando R.E.M. Mas já tocaram duas do Creedance, Pink Floyd e Gun's. Sei que ainda tem Ramones, Beatles e Elvis neste set list. Eles não sabem mas um dos meus grandes desejos natalinos é ser convidada para participar da festa deles.
Se eu tivesse um engradado de cerveja para oferecer em troca, quem sabe.
Mas eu já estou de pijama.
Mesmo assim deixei a janela aberta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

NÃO É SÓ UM TAPINHA NA BUNDA

Primeiro gostaria de iniciar este texto dizendo que visto a minha experiência de vida, consigo reconhecer um "tapinha na bunda" sem dificuldades. Quer dizer, quando um professor pergunta alguma coisa na aula, até dá para se confundir e não saber realmente a resposta. Mas um "tapinha na bunda" não dá pra confundir.
Hoje eu estava embarcando na plataforma da Sé, sentido Corinthians-Itaquera para mais um dia de trabalho. As portas do vagão abriram-se e eu com óculos de sol e fone de ouvido na transmissão de um AC/DC, senti um tapinha no lado direito da bunda. Sim, foi um tapinha na bunda. Daqueles em que a mão está virada, meio de lado com os dedos para baixo numas de fazer um dos lados da bunda subir, manja?
Eu fiquei furiosa. Eu fiquei furiosa por mim e por todo mundo que passa por isso. Que aliás, acontece no transporte coletivo com bastante frequência. Mas além de furiosa, senti que o tapinha na bunda foi o marco do fim da minha paciência.
Olhei para trás e não foi preciso pensar muito para sacar quem havia sido o cuzão autor do tapinha. Por quê? Oras, porque ele estava com aquele sorriso boçal e ao ouvir o meu "puta que pariu" (um pouco acima do meu tom de voz que já é alto), o cara ainda sorrindo me pediu desculpas e disse que tinha sido sem querer. "Desculpa, o cacete. Ninguém dá tapa na bunda sem querer". Todos naquela região do metrô já estavam prestando atenção na cena. E o cuzão, desta vez sem o sorriso disse que foi porque o cara de trás estava empurrando. "O cara te empurra e você bate na minha bunda por causa disso? Finjo que acredito.". Me senti insultada pela segunda vez por essa desculpinha tão imbecil. E a minha vontade era devolver o tapinha em dobro, só que na cara. Bom, este diálogo aconteceu entre a Sé e a estação Pedro II. Até então eu estava bem atrás do cara encostada na parede do vagão. Visivelmente ele se sentiu exposto e não disse mais nada. Alguém levantou de um banco e eu sentei atrás dele, de braços cruzados eu o encarava e percebi que ele podia ver o meu reflexo através da janela do vagão. Brás. Bresser. Senti que ele se aproximava da porta para sair. Ele desceu na mesma estação que eu. E eu achei ótimo. Troquei meu caminho de costume e segui o cara até onde deu. Na escada rolante, no corredor da estação e na rampa que nos leva até a rua. Antes de cruzar a rampa, ele olhou para trás e me viu. Aqui ficou claro pela terceira vez que se tratava de um grande cuzão mesmo. Ele me viu e apertou o passo. Chegou antes na calçada e estrategicamente parou atrás de uma coluna, fugindo da minha vista e se escondendo. Mas eu precisava ir para o trabalho, por isso, este episódio termina aqui.

agregando valor

É o show da vida. E neste show as pessoas se vestem igual. As pessoas pensam igual. Há vários bares com mesas vazias, mas todas elas estão em um mesmo bar. Como dizia aquela música: "gente jovem reunida".
Todos os meninos usam boné, camiseta de marca, bermuda e tênis sem meia. As meninas usam shorts que deixam a poupa da bunda à mostra. Ah, a primavera!
Eu também uso shorts, junto com uma camiseta também comprada em uma loja de departamento qualquer. Mas ainda assim sinto que o meu figurino está fora de moda.
Enquanto o nosso teco de pizza não vem é que eu me divirto com o show. Dentro de mim a questão que não quer calar: Já estive em algum momento como este? E a resposta que vem em seguida é não. Daí que por alguns minutos eu imagino: Se eu estivesse neste rolê, com quem eu ficaria? A resposta que vem em seguida também é rápida, acho que não teria ninguém do meu interesse. Talvez por não me vestir igual ou por que quando perguntam que música eu gosto, eu digo logo e não fico numas de dizer que gosto de tudo. Eu nunca consegui gostar de tudo, sabe.
Não, calma, tem o cara sentado na mesma mesa que eu....eu ficaria com ele. Mas eu já estou com ele. E é isso que eu digo para o moço que vem nos vender flores.
Eu também não consigo entender algumas coisas ainda. Por exemplo, por que agora os meninos usam terços pendurados no pescoço como se fossem colares?
Outras coisas não tento entender e sim elaborar hipóteses. Um casal para perto da nossa mesa. Vejo inúmeras tentativas dele de tentar segurar a moça por alguma parte do corpo dela. Ela desvia algumas vezes, ele insiste. Suponho: primeiro encontro de ambos, segundo no máximo. Foi o tempo de eu acabar de beber a minha Stella. E ele ali moscando esperando liberar a mesa do bar mais cheio, enquanto a pizzaria em que eu estava possuía várias mesas vazias e acolhedoras. O moço tinha uma Calvin Klein mas pouca estratégia para um primeiro encontro. No final das contas, ele desistiu e veio para a pizzaria. Mas ele escolheu uma mesa atrás da nossa. Pizzaria não agrega valor ao primeiro encontro.
Neste momento paguei a nossa conta e voltamos para casa, sem que eu sentisse saudades do que eu não vivi.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O dia do professor

Quando eu passei no vestibular pra fazer o curso de letras, eu não queria tanto assim fazer letras. Mas eu havia passado e a minha curiosidade levou a melhor. Eu estava pensando em frequentar a Unifesp por algumas semanas pra ver como era, a Unifesp e as letras. Na minha primeira quarta-feira, sendo aluna de letras, eu estava sentada na quarta fileira, segunda cadeira da direita para esquerda, lado direito da sala 1 e um cara muito alto, loiro e com olhos claros, entrou e se apresentou com um sotaque muito diferente. Disse que seria nosso professor de estudos literários. Lembro dele ter dito alguma coisa sobre Berlim e eu pude identificar que ele era alemão. E eu achei genial ter um professor alemão. Agora eu era de letras e tinha um professor alemão. Ele abriu aquele sorriso de canto da boca e disse "hum, agora, é a vez de vocês se apresentarem", sorriu novamente e perguntou o que estávamos fazendo ali. Pra ser sincera, eu não sabia direito o que eu estava fazendo ali. O que eu sabia era que pela primeira vez eu estava gostando de estar ali e me senti acolhida pela figura daquele professor. Eu me senti acolhida, inclusive, pelas poesias que ele havia escolhido para analisar com a gente em nossa primeira aula. Eu cursei este semestre inteiro, e os seis semestres que vieram a seguir. Outros professores incríveis apareceram neste mesmo semestre e outros também nos semestres seguintes.
Antes de entrar na Unifesp e ser de letras, outros professores me marcaram e sei que até eu acabar a Unifesp e mesmo depois dela, outros marcarão meu aprendizado, minha vida.

Eu só queria expressar aqui o quanto valorizo esta profissão. Eu devo muito aos meus professores e tenho muito orgulho deles. Parabéns a eles que são heróis e escolheram esta profissão que nem sempre é valorizada mas que é capaz de mudar muita coisa. Eu acredito na educação e nas pessoas que estão comprometidas com ela.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

transição

Você já mudou de casa? Mudar de casa é assim: você guarda todas as coisas dentro de caixas, coloca em algum transporte para carregar e em algum momento, antes de "mudar" você olha em volta, como se se despedisse daquela casa, não só da casa, mas das coisas que você viveu ali naquele lugar. Hoje não me despedi porque talvez um dia, eu volte. Mas hoje eu lembrei da primeira vez em que entrei no campus da Unifesp Guarulhos. Eu gostei do campus desde a primeira vez, sabe. Eu não queria ser de letras e a minha bunda estava doendo, visto a viagem de São Paulo até lá. Mas e daí? Eu cheguei e achei lindo. E eu queria dizer que apesar de tudo que eu já vi acontecer neste lugar, passar por ali foi gratificante. Foi gratificante pelas pessoas incríveis que eu conheci e por todas as coisas que eu aprendi. É isso que eu guardo para mim, é isso que eu trouxe para mim hoje e lembrei - já com saudade - enquanto tomava a minha cerveja que eu comprei no primeiro boteco do lado esquerdo, antes do final da ladeira que eu subi tantas vezes. Cheguei a me perguntar se em algum dia destes quatro anos de vida universitária, eu já havia contemplado um fim de tarde tão cinza.

sábado, 3 de agosto de 2013

Mais uma dose

Stella, meu amor
Começo a te beber, não consigo mais parar
não quero nem saber, de trampar ou estudar
nem a prova de quinta-feira eu consigo preparar
acho que vou me foder, nesta prova do Revah, 
                                                                                                                                                                          

domingo, 30 de junho de 2013

Jura?

Você sabe o que é estar em um lugar mas querer estar em outro lugar que por sua vez está perto, bem ao lado de você?
Talvez você saiba.
Mas dor no coração não adianta não, meu querido.
O que adianta é a nossa atitude em mudar o que nos é possível.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

3,20 é um assalto.

Como é viver num lugar que não te dá uma chance? Como é estar sob um governo que não te dá uma chance? sempre ouvi minha mãe dizendo que o meu pai não ganha aumento há muitos anos. Eu escuto isso há muitos anos e na primeira vez já fazia muitos anos que ele não ganhava um aumento. Mas as passagens e todo o resto, isso sim. Aumentam sempre, a cada dia. Meu pai toma 4 conduções por dia para ir trabalhar. Ele vai em pé no busão lotado, com as mãos pro alto, segurando em uma daquelas barras para não cair. Ah, ele trabalha pro governo, é funcionário público. Mas esse texto não é sobre o meu pai, não. É sobre todos nós que direta ou indiretamente trabalhamos para o governo. A gente faz aquele esforço pra conseguir pagar a nossa comida e o nosso transporte, enquanto eles fazem um esforço para decidir para qual país viajarão no próximo fim de semana. E como o meu pai, nós sempre estamos tentando nos segurar em algum lugar para não cair, e agora de mãos para o alto também.

(GUANAES, Mayra. 3,20 é um assalto. In: Caos e desafetos. 2013. São Paulo: Delírios de Bolso.)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Morre Ray Manzarek, tecladista do The Doors, aos 74 anos

Pensando no Ray Manzarek e em como este cara está eternizado por aquele som de teclado característico e pela obra que ele deixou com The Doors. Tenho uma professora que me ganhou em uma única frase. Ela estava dando aula de literatura e disse pra turma: "Lembra quando você era adolescente e ficava pensando na vida escutando The Doors?". Eu não sou mais adolescente mas eu nunca deixei de pensar na vida escutando The Doors. Os caras vão e a música deles fica. Esta é a intensidade do rock.
E esta foi mais uma apresentação do espetáculo do meu coração. Ele chegou já como personagem, ranzinza de perua - uma perua bem velha - e colocou todas as suas coisas em cima do palco. Subiu para o camarim e viu meu universo particular - as minhas coisas escondidas - aquelas coisas que eu não levo para cena. Mais um dia de trabalho nesse espetáculo, o cardápio deste dia trazia como prato principal lasanha e sim, claro, tinha sobremesa, pavê de limão. Tinha toalha e sabonete liquido lux. Tinha tudo que poderia ter. E já tinha muito amor. A produção era precária sim, mas no espetáculo do meu coração, o amor, esse não falta nunca.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Partida

Não chorei. Não chorei porque de verdade, eu estava louca para ir embora.
Quando vi você ali suado, suor pingando no rosto misturando-se com lágrimas, eu pensei em chorar.
Eu lembrei de muitas coisas, por um momento risadas que ecoaram durante tantas madrugadas vinham em minha memória.
Banhos de mangueira, poesia, bebida, cigarros, frango de padaria.
Mas não. Porque eu pensei em tudo. TUDO.
Meu coração estava apertado e não era saudade não, era alívio mesmo.
Aquele alívio que eu só sentia ao apagar todas as luzes no fim do dia, lembra?
Você não lembra porque eu nunca te contei. Mas era lindo. Era lindo te ver sumindo na escuridão, sabe.
As flores nunca mais nasceram naquele jardim.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Gostava das curvas.


Há algum tempo que não torcia para ganhar um beijo depois de uma carona ganha por causa de uma noite de chuva imprevisível. – Talvez tenha me oferecido uma carona com segundas intenções, como costuma fazer com todas as outras.
Não posso te deixar ir sozinha – dizia – você pode se resfriar.

E pensou que diante daquela pontada logo acima de seu umbigo, um resfriado era o de menos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Humanas.

Não somente aquele lugar ficou vazio mas também as relações humanas que existiam ali foram esvaziadas, ficando fora dos espaços que deviam ocupar. Muros foram erguidos por todas as partes e muitas vezes tomei o impulso para pular mas parava no meio e pensava: "Não, eu não posso. Eu não posso mais com isso" e ficava imóvel no mesmo lugar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

História de uns bonecos ou venha conosco e seremos alegres!

Para todos os bonecos de madeira, fadas, gatos, raposas, grilos, baleias, Gepetos, Pavios e Pinóquios.


Era uma vez.....
- Um pedaço de pau!
Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez MUITOS pedaços de pau, mas apenas 40 deles foram escolhidos para trabalhar dentro de um livro, um livro mágico! E por isso, mereceram virar pequenos bonecos de pau.
Então, a fada, usando uma camiseta de time de baseball, marias-chiquinhas e óculos disse:
- Vocês serão divididos em três equipes: manhã, tarde e noite! Serão cinco meses dentro do livro. Algumas pessoas virão aqui visitar o livro e vocês é que vão acolher essas pessoas!
Diante disso, alguns bonecos ficaram com medo:
- Acolher?
E aí a Fada, antes de chamar os bonecos para entrar no livro, explicou tudo: qual era a estória deste livro, porque essa estória existia, quais partes da estória estavam lá. Fez um sinal juntando o dedo indicador com médio e o anelar com o mínimo, separando-os e disse:
- Confio em vocês.
Ao escutar isso, todos sentiram o significado desta palavra chamada Acolher. E muitos significados foram descobertos nestes cinco meses.
Mas apesar de serem bonecos de madeira, sentiam calor, fome, sede, frio e medo. Mas, não eram meninos de verdade, apesar de tudo isso, eram apenas bonecos de madeira, queridos leitores.
O livro era gigante, cabiam muitas pessoas dentro dele ao mesmo tempo, inclusive nos dias de calor.  Algumas foram as dificuldades destes bonecos em acolher tantas pessoas dentro deste livro e acolher uns aos outros, mas eles chamaram isso de Aprendizado.
Isto, o Aprendizado era o que faltava para que eles virassem meninos de verdade no final daqueles cinco meses. E por mais que eles trabalhassem, virar menino de verdade, era difícil porque......dependia do outro. Afinal, eram três equipes que formavam uma grande equipe! Tinham de virar meninos de verdade juntos.
Conscientes disso passaram a procurar todas as formas possíveis para virar meninos de verdade, mas este outro da qual eles dependiam não estava somente entre eles, mas estava também do lado de fora: eram as pessoas que entravam dentro deste livro. Era preciso então, conseguir um Aprendizado com as pessoas de fora e de dentro.
E eles conseguiram um dia se transformar porque o olhar do outro melhorava o olhar deles, destes bonecos de madeira. Ao entrar no livro, as pessoas ficavam encantadas e isso era transformador. Cada gesto, sorriso, olhar, resposta que recebiam de volta faziam com que fosse menos pau e mais humanos.
Um dia, estes bonecos de pau foram virando meninos de verdade. Um por um, como se estivessem em um corredor em que você entra boneco e sai menino. Depois de se transformar, alguns riam e diziam:
- Como eu era engraçado quando eu era um boneco!
Alguns choravam, depois de virar menino de verdade, cada um deles seguiria um caminho e talvez não fossem mais se encontrar. Outros, não conseguiam chorar, nem rir, se abraçavam e diziam o que haviam aprendido uns com os outros, agradeciam por aquela experiência.
Mas do lado de fora do livro, tudo sorria: as paredes, as escadas, os elevadores, os sofás, as mesas, as cadeiras. Até a piscina sorria.
É que de tudo fica um pouco e quando os bonecos se tornam meninos de verdade, todas as coisas ganham um aspecto novo e sorridente.

(Este miniconto partiu da experiência do meu estágio na exposição "Pinóquio: uma Bela Arte" no Sesc Belenzinho. Algumas falas eu ouvi durante o processo, outras são do livro do Pinóquio, do escritor Carlo Collodi)

Deste lugar


E essa timidez que chega como quem não quer nada, tomando conta do meu corpo e da minha voz, me deixando sem resposta diante de alguém que representa muitas coisas.
Não há o que fazer, eu sorrio meio boba. Talvez o meu corpo diga mais do que a minha fala.
Talvez o meu toque me represente. Talvez o meu corpo preenchendo o espaço do seu, venha a calhar.
A calhar com essa sensação louca, esse pedido louco do meu coração de não querer que este abraço acabe nunca.
Eu digo palavras que depois percebo serem repetitivas e sem criatividade.
A minha criatividade, a minha eloquência, o meu chão. Você levou com você.

domingo, 14 de outubro de 2012

Constatação.

Algumas pessoas devem estar tão acostumadas com elogios que dizer - Você é foda, eu te admiro - pode parecer um pleonasmo.

domingo, 7 de outubro de 2012

Síntese

Comecei a escrever em um diário que eu ganhei no meu aniversário de 6 anos. Quando eu tinha 12 anos comecei a escrever em um blog. E continuo até hoje. Durante todo este tempo parei muitas vezes mas depois de entrar no curso de Letras resolvi me aceitar. Aceitar que a escrita me possibilita viver o que sem ela seria impossível. Meus pensamentos e minha imaginação não cabem em mim, por isso, eu escrevo.

(Eu tenho um jornal. Em outro post conto sobre ele. Eu precisava de um perfil para o nosso site e foi muito difícil conseguir sintetizar minha relação com o ato de escrever. Este é o produto final que coloco aqui porque espero poder organizar este blog um dia.)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Contradições

Era tão auto-suficiente mas tão auto-suficiente que além de se masturbar, lambia as próprias feridas.
Apesar disso, sentia-se só durante aquele momento do dia em que o sol vai embora e o céu fica misto de roxo com laranja.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cabelo ao vento

Nunca mais fomos meninas boazinhas depois daquele dia.
Depois daquele dia vestir roupa preta virou regra de sobrevivência, insistir no esmalte vermelho questão de ordem, dançar o rocknroll sintoma de liberdade.
Sempre havia bebida. A cachaça e o vinho estariam sempre lá para recepcionar as cervejas que chegavam depois mas eram hóspedes bem-vindas naquela geladeira.
As pequenas coisas da vida existiam para salvar as nossas vidas. Os namorados, os amigos, os gatos, a indústria farmacêutica, as risadas que ecoavam dentro da madrugada.
E tudo isso - eu não costumava dizer - era chamado carinhosamente por mim de Poesia.

domingo, 23 de setembro de 2012

Pequenas surpresas.

Naquele dia não queria ter dito tchau. Queria um tempo elástico e dilatado que durasse muito mais.
Queria ir jantar e beber algum drink cheio de simpatia batida com doçura. Queria ouvi-lo dizer qualquer coisa.
Ele chegou atrasado embora dissesse ter adorado conhece-la. Essa foi a primeira vez em que acreditou ter ouvido algo sério da parte dele.
Chegou ao pé do ouvido e disse - Adorei te conhecer. Falta de sensibilidade dela, quem sabe. Talvez ele já tivesse sido sério muitas vezes, ela quem nunca havia percebido.
A ambiguidade das palavras e gestos também era encantadora e diante isso, a seriedade ou falta dela, ficavam em segundo plano.
Aquele cara sabia muitas coisas. Inclusive fazê-la sorrir. Sem nenhum esforço.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Maria Eduarda

Eu nunca vou esquecer da Maria. Quando chegou, Maria foi logo dizendo: - Oi, eu sou nova!
Depois ela estava no grupo que eu iria levar para visitar a exposição de arte. Quando eu disse meu nome, ela disse o dela.
Disse que nossos nomes eram parecidos e notei que o sotaque era diferente. A professora disse que ela era de Portugal.
Eu fiquei encantada, perguntei de onde ela era e ela disse "Sinos" mas por causa do último S não pude compreender.
Perto de onde, eu perguntei. Mira, Penafiel, Boelhe, Coimbra, Porto, Minho? Recitei todas as cidades que eu sabia, na verdade não conheço cidade nenhuma apenas sei os nomes de algumas universidades de lá.
E ela disse que ficava perto de Coimbra. Cu-im-bra.
Maria era a única que já tinha ido em uma exposição de arte. Ela disse que em Portugal tem exposições com quadros e esculturas.
No final do passeio, perguntei o que ela tinha visto na exposição daqui que não tinha lá. E ela disse: Mistério!
Em todos os momentos daquela 1h20 de visita tentei disfarçar que a criança mais interessante era a Maria.
E até quando a outra garotinha me contou ser filha de um chinês. Neste dia as crianças se juntaram para falar que me amavam.
Um amor de 1h20. Outras crianças passaram por mim e me amaram depois disso.
Ainda assim, eu nunca vou esquecer da Maria.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Outras coisas da vida.


Eu estou apaixonada por um carinha aí. O nome dele é Antonio. Antonio Lobo Antunes. Ainda não nos conhecemos muito bem mas acho que quando isso acontecer de fato, nos daremos muito bem. Sei que ele foi pra guerra, sei que ele é médico e sei que ele mora num lugar lá longe chamado Europa. Muitas pessoas falam sobre ele e até escrevem sobre ele! Outras, menos importantes tem que fazer pesquisas sobre ele para ganhar nota na graduação. E outras nem sabem que ele existe. Ouvi dizer que ele toma gelados depois das tardes de autógrafo que ele faz. Bom, pelo menos foi isso que eu li em um livro que ele mesmo escreveu. Esqueci de mencionar que ele é escritor, por isso o mundo dele é sensível e todas as imagens tornam-se palavras. Na verdade nosso amor nunca acontecerá realmente. Mas eu também escrevo e neste caso, todos meus amores impossíveis tornam-se possíveis, ao menos aqui.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Outra estrada

Aquela garota me deixou. Me trocou por outra que julgou mais interessante que eu, talvez.
Me largou febril e doente em um quartinho sujo de hotel no México. Naquele dia agonizei e muitas foram as coisas que passaram pela minha cabeça.
Um dia ela volta, eu pensei.
E voltou.

Mas eu já estava em outra.

sábado, 26 de maio de 2012

Hendrix

Eu acordei de mau humor hoje, meu querido. Eu estou que não me aguento.
Não, não é uma tpm. Isso é coisa da modernidade.
Eu não teria capacidade de perceber que os peitos incham e as espinhas aparecem caso não soubesse quando entro naqueles dias. Não sei quando isso acontece, portanto. Sei que a cota deste mês já foi. Então, gosto mais de ser "de lua" do que ter uma "contratempo" moderno.
Acordei cedo mais uma vez, darei conta da pilha de louça enquanto escuto teus acordes, tua voz.
Obrigada por vir me visitar hoje.
Estamos passando por tempos difíceis.

*Inicio aqui a nova série deste blog com esta republicação do meu blog pessoal.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sobre a maturidade.


Eu já fui uma grande revolucionária, também. Minha mãe trocava a minha fralda, trazia o tetê, ligava a tv no desenho e quando algo não estava bom eu reivindicava aos berros mais chocolate no toddynho. Mais tarde, eu pedia paralisação imediata, esse era o meu único instrumento de luta, então, eu abria a porta e gritava: - Pronto, mãaaae!. E aí ela vinha me limpar. Quando ela não aceitava minhas condições de revolução, eu fazia piquete: Espalhava todos meus brinquedos pela casa. E eu ficava bravinha quando ela pedia (não tão gentilmente) para que eu guardasse tudo. Eu também gritava, batia as portas e fazia minha liberdade de expressão na parede. Se trancou no quarto com o papai? Eu chuto a porta e ocupo.
Não gostava da escola, fazia birra e batia o pé. Eu dormia nas aulas, a mensalidade era eles que pagavam afinal de contas.
Meus professores eram todos uns assalariados, burgueses, neoliberais e pós modernos.

Hoje em dia fazer a revolução tornou-se difícil: Tenho que pagar por todas as revoluções feitas por mim.

(Achei este texto perdido na área de trabalho do computador, não ia publicar porque ele é muito diferente dos outros textos deste blog e acho até que destoa um pouco. Contudo, um dia, vou separar os textos em páginas, dividindo-os por gêneros e assuntos, então, a diversidade também é bem-vinda.)

Cada vez menor.


Uma garoa fina que insiste em cair nesta manhã inibindo a organização de meus tortuosos pensamentos.
Ela dorme em meus braços, com a respiração ofegante, sem se importar com mais nada.
Os carros derrapam na aquaplanagem do fim da ladeira fazendo barulho.
Um dia como todos os outros dias, tantos outros dias.
Assim sempre, sempre assim, assim tem sido.
Não é um motivo para chorar.
Depois chega o sol.
Assim espero.
É, espero.
Sorrio.

(A estrutura deste texto é em escada, ou seja, ela começa com linhas maiores e vai diminuindo como se fossem degraus. Aqui não foi possível deixar com esta configuração)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Eu não quero perder o equilíbrio.

Escrever era a única salvação que havia para que pudesse escapar da forca, portanto.
Escrevia até que seus dedos ficassem em carne viva.
E doía. Não podia chorar de dor, portanto escrevia.

Nuvem negra.


Quando chegou, o colchão estava no corredor, com mais pontos de mofos do que outrora.
- O que aconteceu, aqui? - ela perguntou incrédula. - Choveu e entrou água dentro do seu quarto.
Aquele quarto. Passou alguns tantos infelizes anos de sua vida ali.
O chão cheio d'água e a cabeceira descascando, havia bebido muita água, a pobre.
- Por que não me avisaram? Olha o estado desta cabeceira! Ela está destruída.
- Nós já chamamos alguém para ver isso.
- Mas e a cabeceira? O colchão? Eu não tenho dinheiro para comprar outra cabeceira e outro colchão!
- Eu te compro outros!
Dinheiro nunca havia sido o problema por ali, na verdade. O problema era como este dinheiro vinha sendo aplicado nos últimos 10 anos.
Mudou os móveis e as coisas de lugar muitas vezes por causa da água da chuva que insistia em descer pelas paredes, pingar do teto ou entrar pela porta.
Dessa vez, percebeu, teria que encontrar por fim lugares definitivos. Para as coisas, pessoas e lembranças existentes ali.

A história de Beethoven e sua pedra no rim.


Quando conheci Beethoven, ele era um rapaz que eu encarava com alguma estranheza e encanto porque ele é diferente dos outros rapazes mas é igualzinho ao rapaz que eu idealizava em meus sonhos mais profundos.
Houve uma época muito triste em que eu não encontrava Beethoven porque ele tinha cólicas renais e não ia para a faculdade, portanto.
Eu olhava com algum desespero para fora da sala 1, esperando que ele aparecesse e por vezes ele não aparecia. Ele estava muito longe.
Hoje Beethoven está muito perto. E isso me deixa feliz todos os dias ao acordar e antes de dormir. Aqui na toca do escorpião é tudo muito simples. Beethoven fica escondidinho dentro dela quando sente dor no rim.
Todavia, agora as coisas são diferentes. Ainda com a dor no rim, eu posso abracá-lo.
Posso abraçá-lo e chamá-lo de meu.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cotidiano

Sozinha como em todas as manhãs, pediu seu yakissoba individual que não tardou a chegar.
Acostumou-se a fazer suas refeições sozinha ainda que detestasse esta parte da solidão. Da sala, escutava Jim cantando. L.A. Woman. Ele e seus amigos mortos sempre cantavam para ela.
Seu biscoito da sorte viera com duas sortes, divertiu-se pensando se tudo estaria tão podre para ser necessário duas sortes. Depois chegou a conclusão que sim, está tudo podre. E várias sortes se fazem necessárias.
Abriu uma lata de cerveja e dançou sozinha o Roadhouse Blues. Outras latas de cerveja foram abertas depois.
Esquecer era sua proposta de passatempo pr'aquela tarde vazia.