Marcadores

Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Maria Eduarda

Eu nunca vou esquecer da Maria. Quando chegou, Maria foi logo dizendo: - Oi, eu sou nova!
Depois ela estava no grupo que eu iria levar para visitar a exposição de arte. Quando eu disse meu nome, ela disse o dela.
Disse que nossos nomes eram parecidos e notei que o sotaque era diferente. A professora disse que ela era de Portugal.
Eu fiquei encantada, perguntei de onde ela era e ela disse "Sinos" mas por causa do último S não pude compreender.
Perto de onde, eu perguntei. Mira, Penafiel, Boelhe, Coimbra, Porto, Minho? Recitei todas as cidades que eu sabia, na verdade não conheço cidade nenhuma apenas sei os nomes de algumas universidades de lá.
E ela disse que ficava perto de Coimbra. Cu-im-bra.
Maria era a única que já tinha ido em uma exposição de arte. Ela disse que em Portugal tem exposições com quadros e esculturas.
No final do passeio, perguntei o que ela tinha visto na exposição daqui que não tinha lá. E ela disse: Mistério!
Em todos os momentos daquela 1h20 de visita tentei disfarçar que a criança mais interessante era a Maria.
E até quando a outra garotinha me contou ser filha de um chinês. Neste dia as crianças se juntaram para falar que me amavam.
Um amor de 1h20. Outras crianças passaram por mim e me amaram depois disso.
Ainda assim, eu nunca vou esquecer da Maria.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Outras coisas da vida.


Eu estou apaixonada por um carinha aí. O nome dele é Antonio. Antonio Lobo Antunes. Ainda não nos conhecemos muito bem mas acho que quando isso acontecer de fato, nos daremos muito bem. Sei que ele foi pra guerra, sei que ele é médico e sei que ele mora num lugar lá longe chamado Europa. Muitas pessoas falam sobre ele e até escrevem sobre ele! Outras, menos importantes tem que fazer pesquisas sobre ele para ganhar nota na graduação. E outras nem sabem que ele existe. Ouvi dizer que ele toma gelados depois das tardes de autógrafo que ele faz. Bom, pelo menos foi isso que eu li em um livro que ele mesmo escreveu. Esqueci de mencionar que ele é escritor, por isso o mundo dele é sensível e todas as imagens tornam-se palavras. Na verdade nosso amor nunca acontecerá realmente. Mas eu também escrevo e neste caso, todos meus amores impossíveis tornam-se possíveis, ao menos aqui.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sobre a maturidade.


Eu já fui uma grande revolucionária, também. Minha mãe trocava a minha fralda, trazia o tetê, ligava a tv no desenho e quando algo não estava bom eu reivindicava aos berros mais chocolate no toddynho. Mais tarde, eu pedia paralisação imediata, esse era o meu único instrumento de luta, então, eu abria a porta e gritava: - Pronto, mãaaae!. E aí ela vinha me limpar. Quando ela não aceitava minhas condições de revolução, eu fazia piquete: Espalhava todos meus brinquedos pela casa. E eu ficava bravinha quando ela pedia (não tão gentilmente) para que eu guardasse tudo. Eu também gritava, batia as portas e fazia minha liberdade de expressão na parede. Se trancou no quarto com o papai? Eu chuto a porta e ocupo.
Não gostava da escola, fazia birra e batia o pé. Eu dormia nas aulas, a mensalidade era eles que pagavam afinal de contas.
Meus professores eram todos uns assalariados, burgueses, neoliberais e pós modernos.

Hoje em dia fazer a revolução tornou-se difícil: Tenho que pagar por todas as revoluções feitas por mim.

(Achei este texto perdido na área de trabalho do computador, não ia publicar porque ele é muito diferente dos outros textos deste blog e acho até que destoa um pouco. Contudo, um dia, vou separar os textos em páginas, dividindo-os por gêneros e assuntos, então, a diversidade também é bem-vinda.)

sábado, 21 de abril de 2012

O dia em que eu me apaixonei pelo Bob Dylan

Ela tinha 16 anos. Era um dia como todos os outros. Acordou de mau humor, desceu para a cozinha, tomou um cappuccino na sua caneca preferida, foi até o banheiro, fez xixi e escovou os dentes, voltou para o quarto, vestiu o uniforme da escola todo surrado e jogou o material escolar na mochila.
Foi torcendo pra morrer no percurso do quarto até o carro, mas não deu certo. Entrou no carro e do banco de trás pediu ao pai para que sintonizasse o rádio na rádiorock.
Começou a tocar uma canção que havia tocado na mesma hora, mesmo lugar no dia anterior. Achou que não conhecia a música ou não lembrava de conhecer. Pela sonoridade e pela voz, presumiu que fosse do Bob Dylan, mesmo sem conhecer muito bem o cara.
Sabe, quando você escuta uma canção e se apaixona na mesma hora? É isso. Agora chamaria isso de formação discursiva, mas naquele dia não encontrou explicação.
Entorpecida, batendo a cabeça no banco do carro de casa até a escola. O mundo passava a ser seu quando escutava alguma canção que a fascinava.
Não desceu do carro até o locutor falar de quem era aquela canção. Era do Bob Dylan mesmo.
E ele era fantástico. Meu Deus do céu, que violão, que gaita, que voz, que pagada.
A canção como descobriu após vasculhar a discografia dele chama-se "The Hurricane".
E permaneceu em sua cabeça, junto com a voz de Bob Dylan o dia todo.
Será que amanhã ele virá novamente? – ela pensava.
Já ouvi dizer que quando passamos muito tempo pensando na mesma pessoa e ficamos esperando pra encontrá-la todos os dias, é porque estamos apaixonados.

(Este texto eu escrevi no dia 14 de fevereiro de 2007. Revisei e passei a narração para terceira pessoa. Este episódio aconteceu de verdade. Neste mesmo ano Bob Dylan fez um show no Brasil que eu não puder ir porque eu estava ensaiando a peça "Primavera". Amanhã Bob Dylan fará uma apresentação em São Paulo e eu estarei lá.)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O espetáculo do meu coração.

Eu não estou aberta para negociações. Aqui dentro está sendo montado o espetáculo do meu coração e eu não vou trocar o protagonista. Não vou, por mais complicado, mais louco, mais insano, mais insólito que seja, não vou. Não se fazem mais artistas assim, em lugar nenhum. E eu demorei pra conseguir selecionar, foi um rigoroso teste de seleção e ele passou em todas as milhares de fases com boas notas. E hoje a nota de corte já está muito alta, ninguém é capaz de alcançá-lo. Até parece que tenho que subir montanhas para conseguir um beijo, fazer cara de doce para conseguir um abraço, mover mil neorônios para conseguir uma resposta. Pois é, eu faço escolhas dificeis e esse é mais um dia de ensaio do espetáculo do meu coração. É lindo, tudo lindo. Sei que ele vai chegar com uma cena linda, amarrada numa música que ele mesmo criou. Sei que haverão imagens lindas do começo ao fim, todas executadas com tranquilidade e segurança de mestre. Ao final de cada ensaio, beberemos Brahma, com a conta dividida. Não dá mais, daqui a pouco estamos estreando. Não vamos nos apegar em nomenclaturas, exercícios rasos. O tempo passa rápido né? Se as coisas fossem fáceis não teriam a menor graça. Eu aprendi a transformar. Se não dá pra ser, eu transformo. Só não quero ter que trocar o protagonista agora. Foram alguns anos trabalhando nisso. Sabe, como é. Ele chegou tomando conta do espaço, roubou a cena. Talvez tenha sido só mais alguma coisa que ele andou levando consigo sorrateiramente, como aquele livro. E quando é assim, desculpa, não dá. Não dou, não empresto, não troco o meu protagonista. Não desisto. E não adianta insistir. Eu não estou aberta para negociações.

(Este texto foi escrito dia 19 de julho de 2009 e o título original era "partindo ainda daquela improvisação" escrevi depois de um dia de improviso livre que fizemos. Este blog na verdade, também conta com textos que eu já havia publicado em outros blogs. Estou fazendo isso para arquivar tudo que eu acho razoável em um lugar só. Fazia muito tempo que eu não relia este texto, hoje eu pensei: Eita, eu escrevi isso?)

Cacofônico

Pensei que fosse chorar. O dia começou magoado e acho que não vai melhorar.
Alguma coisa de dentro de mim morreu hoje e essa coisa se chamava esperança.
Ela morava ao lado do orgulho dentro do coração. A solidão passou aqui e a levou para longe, muito longe.
O resto que ficou era o silêncio. Depois daquilo só o silêncio nos tiraria dali. Eu queria dormir e só acordar depois de muito tempo.
Copos de vidro sendo quebrados como o meu coração, agora em pedaços espalhados pelo chão de piso frio de um boteco de esquina qualquer.

(Este texto era dois mas deixei que ele fosse um só, como eu: só)