Eu lembro dessa história. Foi numa quinta-feira.
Foi num dia tipo assim que a gente fala: Passa lá no trampo pra almoçar, a gente faz alguma coisa depois.
Isso me contaram depois também.
Tem um cara que frequenta aqui a lanchonete...eu não sei o nome dele mas a gente chama de poliglota porque já vimos ele falando várias línguas. Quando ele chegou nesse dia, ele beijou a boca de uma moça bem nova que eu nunca tinha visto aqui.
O que eu achei gozado é que eu achava que ele era namorado de uma outra moça que também vem sempre aqui, eles almoçam juntos todos os dias. É a Cidinha, essa eu sei, já ouvi ela se apresentando pras pessoas.
Aí o poliglota beijou a moça mais nova, eu vi detrás do balcão. E aí a Cidinha chegou e beijou ele também. Nunca tinha pensado isso do poliglota.
Acho que é porque ele fala várias línguas então tou pensando em fazer um curso de inglês daqueles que você aprende a falar em 3 meses. As mina curte isso já saquei.
Os três foram pra mesa, vieram para mais perto da pia, eu tava lavando os copos nesse dia.
Então o poliglota sentou ao lado da moça mais nova com a mão na coxa dela e perguntou o que elas queriam comer.
A moça mais nova disse que não queria nada, valeu. Já tava de saída. Mas pôxa, ela tinha chegado só há 10 minutos!
E então ele disse: Vai comer, sim. Cidinha o que você vai querer?
A Cidinha disse que queria comer um virado à paulista. Ela disse que tava com vontade de comer bisteca.
O poliglota disse para a moça mais nova: ah, ótimo, pode ser virado à paulista então, amor?
A moça mais nova só falou que podia. O poliglota perguntou então o que elas iam beber. E esperaram o atendente.
Eu não estava atendendo neste dia. Aí como o atendente não apareceu porque a lanchonete tava cheia, o poliglota veio fazer o pedido no balcão com o Noca.
Enquanto isso, na mesa, a Cidinha mexia no celular. Se pá ia fazer um selfie com a bisteca e postar no face igual todo mundo.
A mais nova olhava para o teto e para os cartazes da lanchonete. Bolo de climão.
A cidinha então pergunta para quebrar o gelo:
- E aí o que você gosta de fazer?
A mais nova vira para Cidinha e fala:
- Gosto de escrever hitórias.
Aí parece que só por educação ela pergunta:
- E você?
- Ahhh, eu gosto de crianças.
A mais nova parece bem menos empolgada mas diz:
-Legal.
O poliglota chega e o virado à paulista deles chega bem em seguida. Aqui a gente trabalha bem rápido, principalmente na hora do almoço que é rush, né.
Enquanto eles comem, a Cidinha conversa com o poliglota sobre relatórios de uma burocra qualquer.
A mais nova se levanta, diz, tou indo e da um beijão no poliglota. E sai.
Que bundão, cara. sássenhora. Se eu não tivesse no trampo eu ia dizer: Aí, sim, heim?
Aí foi rápido. Mesmo com os carros passando a mais nova atravessou a alameda.
O corpo dela voou alguns metros. Sangue na cabeça e acho que esta historia ela não vai escrever.
Foi o virado à Paulista mais indigesto que eu já tinha visto na vida.
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quinta-feira, 31 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
simples assim
Parece uma grande bobagem.
As coisas todas tornando-se mais leves naquele dia, o dia dos origamis.
Aquela tarde de outono em que suas mãos ficaram com os dedos todos verdes depois de dobrar aqui, agora aqui, ali e e ali de novo.
Antes de abrir as asinhas - tem que fazer um pedido. Foi o que você havia me dito.
E eu fiz.
Mas depois você me disse que para que o pedido se realizasse eu deveria fazer mais 999 origamis.
Eu deveria dobrar um bando de 999 origamis tsurus cuja técnica eu ainda não havia dominado e estava longe de dominar.
Você também parecia triste mas certamente não era por isso. Você não sabia que eu parava por ali.
Você não sabia que eu não chegaria a dobrar os outros 999 tsorus.
Não. É tudo mais simples. Você dobra 1000 tsurus para seus pedidos se realizarem.
Eu torno as minhas causas mais urgentes. Eu dobro só um e todos os meus pedidos devem se realizar. Assim mesmo.
Tsurus solitários.
Tsurus solitários. Como eu.
O que importa é a leveza no abrir das asas para voar.
E sempre na hora do voar e partir eu sentia saudades de tudo aquilo.
As coisas todas tornando-se mais leves naquele dia, o dia dos origamis.
Aquela tarde de outono em que suas mãos ficaram com os dedos todos verdes depois de dobrar aqui, agora aqui, ali e e ali de novo.
Antes de abrir as asinhas - tem que fazer um pedido. Foi o que você havia me dito.
E eu fiz.
Mas depois você me disse que para que o pedido se realizasse eu deveria fazer mais 999 origamis.
Eu deveria dobrar um bando de 999 origamis tsurus cuja técnica eu ainda não havia dominado e estava longe de dominar.
Você também parecia triste mas certamente não era por isso. Você não sabia que eu parava por ali.
Você não sabia que eu não chegaria a dobrar os outros 999 tsorus.
Não. É tudo mais simples. Você dobra 1000 tsurus para seus pedidos se realizarem.
Eu torno as minhas causas mais urgentes. Eu dobro só um e todos os meus pedidos devem se realizar. Assim mesmo.
Tsurus solitários.
Tsurus solitários. Como eu.
O que importa é a leveza no abrir das asas para voar.
E sempre na hora do voar e partir eu sentia saudades de tudo aquilo.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Eu volto logo, me espera.
Foi a minha primeira vez e ela foi legal comigo.
Ela tinha cabelos longos e vermelhos mostrando a raíz, sardas, unhas pintadas de um verde quase petróleo, aneis e pulseiras. Usava uma blusa branca envolvida por um colar.
Ela disse: Próximo!
E eu avancei meio sem saber o que fazer.
Ela me perguntou: sedex, carta registrada ou simples?
Eu disse que não sabia a diferença entre os três.
Ela me disse que o Sedex chegava no dia seguinte no horário comercial. 15 reais.
Depois ela disse, "ah, eu menti para você, é 14 reais, meu amor". Ela me chamou de meu amor. Me passou o preço e me chamou de amor. Agora eu sou o amor da moça que atende no correio.
A segunda-feira ficou bonita, finalmente.
Ela colou o envelope, colocou a etiqueta e disse desta vez: este é o seu número de controle. Tá, minha linda?
O mundo é tão hostil que eu achei estranho tanta simpatia. Eu me senti mal por querer responder: Linda é você, querida.
Eu estava sem reação. E disse um "obrigada, moça" genérico mesmo pensando em não sorrir muito, talvez tivesse um verde entre os meus dentes não escovados após o almoço.
Eu tenho 20 e poucos anos e hoje foi a primeira vez em que eu fui para o correio enviar uma carta.
Ela tinha cabelos longos e vermelhos mostrando a raíz, sardas, unhas pintadas de um verde quase petróleo, aneis e pulseiras. Usava uma blusa branca envolvida por um colar.
Ela disse: Próximo!
E eu avancei meio sem saber o que fazer.
Ela me perguntou: sedex, carta registrada ou simples?
Eu disse que não sabia a diferença entre os três.
Ela me disse que o Sedex chegava no dia seguinte no horário comercial. 15 reais.
Depois ela disse, "ah, eu menti para você, é 14 reais, meu amor". Ela me chamou de meu amor. Me passou o preço e me chamou de amor. Agora eu sou o amor da moça que atende no correio.
A segunda-feira ficou bonita, finalmente.
Ela colou o envelope, colocou a etiqueta e disse desta vez: este é o seu número de controle. Tá, minha linda?
O mundo é tão hostil que eu achei estranho tanta simpatia. Eu me senti mal por querer responder: Linda é você, querida.
Eu estava sem reação. E disse um "obrigada, moça" genérico mesmo pensando em não sorrir muito, talvez tivesse um verde entre os meus dentes não escovados após o almoço.
Eu tenho 20 e poucos anos e hoje foi a primeira vez em que eu fui para o correio enviar uma carta.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
amores efêmeros
Cheguei a lembrar de muitos dos nossos momentos juntos. Eu te limpando por dentro, passando a esponja com espuma em você. Todos os fins de tardes e começos de dia em que estivemos juntos e todas as noites após às 22h em que ficávamos juntos tentando fazer tudo o mais baixo possível porque afinal moramos em um apartamento e no prédio aqui é silêncio absoluto após as 22h.
Todas as vitaminas e sucos que fizemos juntos. E até aquela torta que aprendi a fazer neste ano, ao tentar cumprir a minha meta de aprender a cozinhar mais até o final de 2014.
Agora sei que o fim está próximo. É o fim da nossa deliciosa relação de três anos. Lamento dizer que o seu fim será um ferro velho provavelmente e que depois de ir pra lá, nunca mais nos veremos e você nunca mais sentirá o toque suave das minhas mãos.
Obrigada por tudo que passamos juntos. Obrigada por todas as vezes em que você bateu pra mim.
Eu também estou triste. A vida continua dura e se não fosse o crediário nas Casas Bahia talvez fosse pior e agora que você quebrou...terei de comprar um liquidificador novo.
Todas as vitaminas e sucos que fizemos juntos. E até aquela torta que aprendi a fazer neste ano, ao tentar cumprir a minha meta de aprender a cozinhar mais até o final de 2014.
Agora sei que o fim está próximo. É o fim da nossa deliciosa relação de três anos. Lamento dizer que o seu fim será um ferro velho provavelmente e que depois de ir pra lá, nunca mais nos veremos e você nunca mais sentirá o toque suave das minhas mãos.
Obrigada por tudo que passamos juntos. Obrigada por todas as vezes em que você bateu pra mim.
Eu também estou triste. A vida continua dura e se não fosse o crediário nas Casas Bahia talvez fosse pior e agora que você quebrou...terei de comprar um liquidificador novo.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Banda do galo
Tem uma banda de rock na minha rua. Três casas para frente do lugar onde
eu moro. É assim em todos os natais. Eles se reúnem e tocam rock. Da
janela do meu quarto dá pra ouvir tudo. Inclusive dá pra sacar quais
músicas eles mandam melhor. Eles estão tocando R.E.M. Mas já tocaram
duas do Creedance, Pink Floyd e Gun's. Sei que ainda tem Ramones,
Beatles e Elvis neste set list. Eles não sabem mas um dos meus grandes
desejos natalinos é ser convidada para participar da festa deles.
Se eu tivesse um engradado de cerveja para oferecer em troca, quem sabe.
Mas eu já estou de pijama.
Mesmo assim deixei a janela aberta.
Se eu tivesse um engradado de cerveja para oferecer em troca, quem sabe.
Mas eu já estou de pijama.
Mesmo assim deixei a janela aberta.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
NÃO É SÓ UM TAPINHA NA BUNDA
Primeiro gostaria de iniciar este texto dizendo que visto a minha
experiência de vida, consigo reconhecer um "tapinha na bunda" sem
dificuldades. Quer dizer, quando um professor pergunta alguma coisa na
aula, até dá para se confundir e não saber realmente a resposta. Mas um
"tapinha na bunda" não dá pra confundir.
Hoje eu estava embarcando na plataforma da Sé, sentido Corinthians-Itaquera para mais um dia de trabalho. As portas do vagão abriram-se e eu com óculos de sol e fone de ouvido na transmissão de um AC/DC, senti um tapinha no lado direito da bunda. Sim, foi um tapinha na bunda. Daqueles em que a mão está virada, meio de lado com os dedos para baixo numas de fazer um dos lados da bunda subir, manja?
Eu fiquei furiosa. Eu fiquei furiosa por mim e por todo mundo que passa por isso. Que aliás, acontece no transporte coletivo com bastante frequência. Mas além de furiosa, senti que o tapinha na bunda foi o marco do fim da minha paciência.
Olhei para trás e não foi preciso pensar muito para sacar quem havia sido o cuzão autor do tapinha. Por quê? Oras, porque ele estava com aquele sorriso boçal e ao ouvir o meu "puta que pariu" (um pouco acima do meu tom de voz que já é alto), o cara ainda sorrindo me pediu desculpas e disse que tinha sido sem querer. "Desculpa, o cacete. Ninguém dá tapa na bunda sem querer". Todos naquela região do metrô já estavam prestando atenção na cena. E o cuzão, desta vez sem o sorriso disse que foi porque o cara de trás estava empurrando. "O cara te empurra e você bate na minha bunda por causa disso? Finjo que acredito.". Me senti insultada pela segunda vez por essa desculpinha tão imbecil. E a minha vontade era devolver o tapinha em dobro, só que na cara. Bom, este diálogo aconteceu entre a Sé e a estação Pedro II. Até então eu estava bem atrás do cara encostada na parede do vagão. Visivelmente ele se sentiu exposto e não disse mais nada. Alguém levantou de um banco e eu sentei atrás dele, de braços cruzados eu o encarava e percebi que ele podia ver o meu reflexo através da janela do vagão. Brás. Bresser. Senti que ele se aproximava da porta para sair. Ele desceu na mesma estação que eu. E eu achei ótimo. Troquei meu caminho de costume e segui o cara até onde deu. Na escada rolante, no corredor da estação e na rampa que nos leva até a rua. Antes de cruzar a rampa, ele olhou para trás e me viu. Aqui ficou claro pela terceira vez que se tratava de um grande cuzão mesmo. Ele me viu e apertou o passo. Chegou antes na calçada e estrategicamente parou atrás de uma coluna, fugindo da minha vista e se escondendo. Mas eu precisava ir para o trabalho, por isso, este episódio termina aqui.
Hoje eu estava embarcando na plataforma da Sé, sentido Corinthians-Itaquera para mais um dia de trabalho. As portas do vagão abriram-se e eu com óculos de sol e fone de ouvido na transmissão de um AC/DC, senti um tapinha no lado direito da bunda. Sim, foi um tapinha na bunda. Daqueles em que a mão está virada, meio de lado com os dedos para baixo numas de fazer um dos lados da bunda subir, manja?
Eu fiquei furiosa. Eu fiquei furiosa por mim e por todo mundo que passa por isso. Que aliás, acontece no transporte coletivo com bastante frequência. Mas além de furiosa, senti que o tapinha na bunda foi o marco do fim da minha paciência.
Olhei para trás e não foi preciso pensar muito para sacar quem havia sido o cuzão autor do tapinha. Por quê? Oras, porque ele estava com aquele sorriso boçal e ao ouvir o meu "puta que pariu" (um pouco acima do meu tom de voz que já é alto), o cara ainda sorrindo me pediu desculpas e disse que tinha sido sem querer. "Desculpa, o cacete. Ninguém dá tapa na bunda sem querer". Todos naquela região do metrô já estavam prestando atenção na cena. E o cuzão, desta vez sem o sorriso disse que foi porque o cara de trás estava empurrando. "O cara te empurra e você bate na minha bunda por causa disso? Finjo que acredito.". Me senti insultada pela segunda vez por essa desculpinha tão imbecil. E a minha vontade era devolver o tapinha em dobro, só que na cara. Bom, este diálogo aconteceu entre a Sé e a estação Pedro II. Até então eu estava bem atrás do cara encostada na parede do vagão. Visivelmente ele se sentiu exposto e não disse mais nada. Alguém levantou de um banco e eu sentei atrás dele, de braços cruzados eu o encarava e percebi que ele podia ver o meu reflexo através da janela do vagão. Brás. Bresser. Senti que ele se aproximava da porta para sair. Ele desceu na mesma estação que eu. E eu achei ótimo. Troquei meu caminho de costume e segui o cara até onde deu. Na escada rolante, no corredor da estação e na rampa que nos leva até a rua. Antes de cruzar a rampa, ele olhou para trás e me viu. Aqui ficou claro pela terceira vez que se tratava de um grande cuzão mesmo. Ele me viu e apertou o passo. Chegou antes na calçada e estrategicamente parou atrás de uma coluna, fugindo da minha vista e se escondendo. Mas eu precisava ir para o trabalho, por isso, este episódio termina aqui.
agregando valor
É o
show da vida. E neste show as pessoas se vestem igual. As pessoas pensam
igual. Há vários bares com mesas vazias, mas todas elas estão em um
mesmo bar. Como dizia aquela música: "gente jovem reunida".
Todos os meninos usam boné, camiseta de marca, bermuda e tênis sem meia. As meninas usam shorts que deixam a poupa da bunda à mostra. Ah, a primavera!
Eu também uso shorts, junto com uma camiseta também comprada em uma loja de departamento qualquer. Mas ainda assim sinto que o meu figurino está fora de moda.
Enquanto o nosso teco de pizza não vem é que eu me divirto com o show. Dentro de mim a questão que não quer calar: Já estive em algum momento como este? E a resposta que vem em seguida é não. Daí que por alguns minutos eu imagino: Se eu estivesse neste rolê, com quem eu ficaria? A resposta que vem em seguida também é rápida, acho que não teria ninguém do meu interesse. Talvez por não me vestir igual ou por que quando perguntam que música eu gosto, eu digo logo e não fico numas de dizer que gosto de tudo. Eu nunca consegui gostar de tudo, sabe.
Não, calma, tem o cara sentado na mesma mesa que eu....eu ficaria com ele. Mas eu já estou com ele. E é isso que eu digo para o moço que vem nos vender flores.
Eu também não consigo entender algumas coisas ainda. Por exemplo, por que agora os meninos usam terços pendurados no pescoço como se fossem colares?
Outras coisas não tento entender e sim elaborar hipóteses. Um casal para perto da nossa mesa. Vejo inúmeras tentativas dele de tentar segurar a moça por alguma parte do corpo dela. Ela desvia algumas vezes, ele insiste. Suponho: primeiro encontro de ambos, segundo no máximo. Foi o tempo de eu acabar de beber a minha Stella. E ele ali moscando esperando liberar a mesa do bar mais cheio, enquanto a pizzaria em que eu estava possuía várias mesas vazias e acolhedoras. O moço tinha uma Calvin Klein mas pouca estratégia para um primeiro encontro. No final das contas, ele desistiu e veio para a pizzaria. Mas ele escolheu uma mesa atrás da nossa. Pizzaria não agrega valor ao primeiro encontro.
Neste momento paguei a nossa conta e voltamos para casa, sem que eu sentisse saudades do que eu não vivi.
Todos os meninos usam boné, camiseta de marca, bermuda e tênis sem meia. As meninas usam shorts que deixam a poupa da bunda à mostra. Ah, a primavera!
Eu também uso shorts, junto com uma camiseta também comprada em uma loja de departamento qualquer. Mas ainda assim sinto que o meu figurino está fora de moda.
Enquanto o nosso teco de pizza não vem é que eu me divirto com o show. Dentro de mim a questão que não quer calar: Já estive em algum momento como este? E a resposta que vem em seguida é não. Daí que por alguns minutos eu imagino: Se eu estivesse neste rolê, com quem eu ficaria? A resposta que vem em seguida também é rápida, acho que não teria ninguém do meu interesse. Talvez por não me vestir igual ou por que quando perguntam que música eu gosto, eu digo logo e não fico numas de dizer que gosto de tudo. Eu nunca consegui gostar de tudo, sabe.
Não, calma, tem o cara sentado na mesma mesa que eu....eu ficaria com ele. Mas eu já estou com ele. E é isso que eu digo para o moço que vem nos vender flores.
Eu também não consigo entender algumas coisas ainda. Por exemplo, por que agora os meninos usam terços pendurados no pescoço como se fossem colares?
Outras coisas não tento entender e sim elaborar hipóteses. Um casal para perto da nossa mesa. Vejo inúmeras tentativas dele de tentar segurar a moça por alguma parte do corpo dela. Ela desvia algumas vezes, ele insiste. Suponho: primeiro encontro de ambos, segundo no máximo. Foi o tempo de eu acabar de beber a minha Stella. E ele ali moscando esperando liberar a mesa do bar mais cheio, enquanto a pizzaria em que eu estava possuía várias mesas vazias e acolhedoras. O moço tinha uma Calvin Klein mas pouca estratégia para um primeiro encontro. No final das contas, ele desistiu e veio para a pizzaria. Mas ele escolheu uma mesa atrás da nossa. Pizzaria não agrega valor ao primeiro encontro.
Neste momento paguei a nossa conta e voltamos para casa, sem que eu sentisse saudades do que eu não vivi.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
O dia do professor
Quando eu passei no vestibular pra fazer o curso de letras, eu não queria tanto assim fazer letras. Mas eu havia passado e a minha curiosidade levou a melhor. Eu estava pensando em frequentar a Unifesp por algumas semanas pra ver como era, a Unifesp e as letras. Na minha primeira quarta-feira, sendo aluna de letras, eu estava sentada na quarta fileira, segunda cadeira da direita para esquerda, lado direito da sala 1 e um cara muito alto, loiro e com olhos claros, entrou e se apresentou com um sotaque muito diferente. Disse que seria nosso professor de estudos literários. Lembro dele ter dito alguma coisa sobre Berlim e eu pude identificar que ele era alemão. E eu achei genial ter um professor alemão. Agora eu era de letras e tinha um professor alemão. Ele abriu aquele sorriso de canto da boca e disse "hum, agora, é a vez de vocês se apresentarem", sorriu novamente e perguntou o que estávamos fazendo ali. Pra ser sincera, eu não sabia direito o que eu estava fazendo ali. O que eu sabia era que pela primeira vez eu estava gostando de estar ali e me senti acolhida pela figura daquele professor. Eu me senti acolhida, inclusive, pelas poesias que ele havia escolhido para analisar com a gente em nossa primeira aula. Eu cursei este semestre inteiro, e os seis semestres que vieram a seguir. Outros professores incríveis apareceram neste mesmo semestre e outros também nos semestres seguintes.
Antes de entrar na Unifesp e ser de letras, outros professores me marcaram e sei que até eu acabar a Unifesp e mesmo depois dela, outros marcarão meu aprendizado, minha vida.
Eu só queria expressar aqui o quanto valorizo esta profissão. Eu devo muito aos meus professores e tenho muito orgulho deles. Parabéns a eles que são heróis e escolheram esta profissão que nem sempre é valorizada mas que é capaz de mudar muita coisa. Eu acredito na educação e nas pessoas que estão comprometidas com ela.
Antes de entrar na Unifesp e ser de letras, outros professores me marcaram e sei que até eu acabar a Unifesp e mesmo depois dela, outros marcarão meu aprendizado, minha vida.
Eu só queria expressar aqui o quanto valorizo esta profissão. Eu devo muito aos meus professores e tenho muito orgulho deles. Parabéns a eles que são heróis e escolheram esta profissão que nem sempre é valorizada mas que é capaz de mudar muita coisa. Eu acredito na educação e nas pessoas que estão comprometidas com ela.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
transição
Você já mudou de casa? Mudar de casa é assim: você guarda todas as coisas dentro de caixas, coloca em algum transporte para carregar e em algum momento, antes de "mudar" você olha em volta, como se se despedisse daquela casa, não só da casa, mas das coisas que você viveu ali naquele lugar. Hoje não me despedi porque talvez um dia, eu volte. Mas hoje eu lembrei da primeira vez em que entrei no campus da Unifesp Guarulhos. Eu gostei do campus desde a primeira vez, sabe. Eu não queria ser de letras e a minha bunda estava doendo, visto a viagem de São Paulo até lá. Mas e daí? Eu cheguei e achei lindo. E eu queria dizer que apesar de tudo que eu já vi acontecer neste lugar, passar por ali foi gratificante. Foi gratificante pelas pessoas incríveis que eu conheci e por todas as coisas que eu aprendi. É isso que eu guardo para mim, é isso que eu trouxe para mim hoje e lembrei - já com saudade - enquanto tomava a minha cerveja que eu comprei no primeiro boteco do lado esquerdo, antes do final da ladeira que eu subi tantas vezes. Cheguei a me perguntar se em algum dia destes quatro anos de vida universitária, eu já havia contemplado um fim de tarde tão cinza.
sábado, 3 de agosto de 2013
Mais uma dose
Stella, meu amor
Começo a te beber, não consigo mais parar
não quero nem saber, de trampar ou estudar
nem a prova de quinta-feira eu consigo preparar
acho que vou me foder, nesta prova do Revah,
domingo, 30 de junho de 2013
Jura?
Você sabe o que é estar em um lugar mas querer estar em outro lugar que por sua vez está perto, bem ao lado de você?
Talvez você saiba.
Mas dor no coração não adianta não, meu querido.
O que adianta é a nossa atitude em mudar o que nos é possível.
Talvez você saiba.
Mas dor no coração não adianta não, meu querido.
O que adianta é a nossa atitude em mudar o que nos é possível.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
3,20 é um assalto.
Como é
viver num lugar que não te dá uma chance? Como é estar sob um governo
que não te dá uma chance? sempre ouvi minha mãe dizendo que o meu pai
não ganha aumento há muitos anos. Eu escuto isso há muitos anos e na
primeira vez já fazia muitos anos que ele não ganhava um aumento. Mas as
passagens e todo o resto, isso sim. Aumentam sempre, a cada dia. Meu
pai toma 4 conduções por dia para ir trabalhar.
Ele vai em pé no busão lotado, com as mãos pro alto, segurando em uma
daquelas barras para não cair. Ah, ele trabalha pro governo, é
funcionário público. Mas esse texto não é sobre o meu pai, não. É sobre
todos nós que direta ou indiretamente trabalhamos para o governo. A
gente faz aquele esforço pra conseguir pagar a nossa comida e o nosso
transporte, enquanto eles fazem um esforço para decidir para qual país
viajarão no próximo fim de semana. E como o meu pai, nós sempre estamos
tentando nos segurar em algum lugar para não cair, e agora de mãos para o
alto também.
(GUANAES, Mayra. 3,20 é um assalto. In: Caos e desafetos. 2013. São Paulo: Delírios de Bolso.)
(GUANAES, Mayra. 3,20 é um assalto. In: Caos e desafetos. 2013. São Paulo: Delírios de Bolso.)
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Morre Ray Manzarek, tecladista do The Doors, aos 74 anos
Pensando
no Ray Manzarek e em como este cara está eternizado por aquele som de
teclado característico e pela obra que ele deixou com The Doors. Tenho
uma professora que me ganhou em uma única frase. Ela estava dando aula
de literatura e disse pra turma: "Lembra quando você era adolescente e
ficava pensando na vida escutando The Doors?". Eu não sou mais
adolescente mas eu nunca deixei de pensar na vida escutando The Doors.
Os caras vão e a música deles fica. Esta é a intensidade do rock.
E esta foi mais uma apresentação do espetáculo do meu coração. Ele chegou já como personagem, ranzinza de perua - uma perua bem velha - e colocou todas as suas coisas em cima do palco. Subiu para o camarim e viu meu universo particular - as minhas coisas escondidas - aquelas coisas que eu não levo para cena. Mais um dia de trabalho nesse espetáculo, o cardápio deste dia trazia como prato principal lasanha e sim, claro, tinha sobremesa, pavê de limão. Tinha toalha e sabonete liquido lux. Tinha tudo que poderia ter. E já tinha muito amor. A produção era precária sim, mas no espetáculo do meu coração, o amor, esse não falta nunca.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Partida
Não chorei. Não chorei porque de verdade, eu estava louca para ir embora.
Quando vi você ali suado, suor pingando no rosto misturando-se com lágrimas, eu pensei em chorar.
Eu lembrei de muitas coisas, por um momento risadas que ecoaram durante tantas madrugadas vinham em minha memória.
Banhos de mangueira, poesia, bebida, cigarros, frango de padaria.
Mas não. Porque eu pensei em tudo. TUDO.
Meu coração estava apertado e não era saudade não, era alívio mesmo.
Aquele alívio que eu só sentia ao apagar todas as luzes no fim do dia, lembra?
Você não lembra porque eu nunca te contei. Mas era lindo. Era lindo te ver sumindo na escuridão, sabe.
As flores nunca mais nasceram naquele jardim.
Quando vi você ali suado, suor pingando no rosto misturando-se com lágrimas, eu pensei em chorar.
Eu lembrei de muitas coisas, por um momento risadas que ecoaram durante tantas madrugadas vinham em minha memória.
Banhos de mangueira, poesia, bebida, cigarros, frango de padaria.
Mas não. Porque eu pensei em tudo. TUDO.
Meu coração estava apertado e não era saudade não, era alívio mesmo.
Aquele alívio que eu só sentia ao apagar todas as luzes no fim do dia, lembra?
Você não lembra porque eu nunca te contei. Mas era lindo. Era lindo te ver sumindo na escuridão, sabe.
As flores nunca mais nasceram naquele jardim.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Gostava das curvas.
Há algum tempo que não torcia para ganhar um beijo depois de
uma carona ganha por causa de uma noite de chuva imprevisível. – Talvez tenha
me oferecido uma carona com segundas intenções, como costuma fazer com todas as
outras.
Não posso te deixar ir sozinha – dizia – você pode se
resfriar.
E pensou que diante daquela pontada logo acima de seu
umbigo, um resfriado era o de menos.
domingo, 25 de novembro de 2012
Humanas.
Não somente aquele lugar ficou vazio mas também as relações humanas que existiam ali foram esvaziadas, ficando fora dos espaços que deviam ocupar. Muros foram erguidos por todas as partes e muitas vezes tomei o impulso para pular mas parava no meio e pensava: "Não, eu não posso. Eu não posso mais com isso" e ficava imóvel no mesmo lugar.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
História de uns bonecos ou venha conosco e seremos alegres!
Para todos os bonecos de madeira, fadas, gatos, raposas, grilos, baleias, Gepetos, Pavios e Pinóquios.
Era uma vez.....
Era uma vez.....
- Um pedaço de pau!
Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez MUITOS pedaços
de pau, mas apenas 40 deles foram escolhidos para trabalhar dentro de um livro,
um livro mágico! E por isso, mereceram virar pequenos bonecos de pau.
Então, a fada, usando uma camiseta de time de baseball,
marias-chiquinhas e óculos disse:
- Vocês serão divididos em três equipes: manhã, tarde e
noite! Serão cinco meses dentro do livro. Algumas pessoas virão aqui visitar o
livro e vocês é que vão acolher essas pessoas!
Diante disso, alguns bonecos ficaram com medo:
- Acolher?
E aí a Fada, antes de chamar os bonecos para entrar no
livro, explicou tudo: qual era a estória deste livro, porque essa estória
existia, quais partes da estória estavam lá. Fez um sinal juntando o dedo indicador com médio e o anelar com o mínimo, separando-os e disse:
- Confio em vocês.
Ao escutar isso, todos sentiram o significado desta palavra
chamada Acolher. E muitos significados foram descobertos nestes cinco meses.
Mas apesar de serem bonecos de madeira, sentiam calor, fome,
sede, frio e medo. Mas, não eram meninos de verdade, apesar de tudo isso, eram
apenas bonecos de madeira, queridos leitores.
O livro era gigante, cabiam muitas pessoas dentro dele ao
mesmo tempo, inclusive nos dias de calor. Algumas foram as dificuldades destes bonecos
em acolher tantas pessoas dentro deste livro e acolher uns aos outros, mas eles
chamaram isso de Aprendizado.
Isto, o Aprendizado era o que faltava para que eles virassem
meninos de verdade no final daqueles cinco meses. E por mais que eles
trabalhassem, virar menino de verdade, era difícil porque......dependia do
outro. Afinal, eram três equipes que formavam uma grande equipe! Tinham de
virar meninos de verdade juntos.
Conscientes disso passaram a procurar todas as formas possíveis
para virar meninos de verdade, mas este outro da qual eles dependiam não estava
somente entre eles, mas estava também do lado de fora: eram as pessoas que
entravam dentro deste livro. Era preciso então, conseguir um Aprendizado com as
pessoas de fora e de dentro.
E eles conseguiram um dia se transformar porque o olhar do
outro melhorava o olhar deles, destes bonecos de madeira. Ao entrar no livro,
as pessoas ficavam encantadas e isso era transformador. Cada gesto, sorriso,
olhar, resposta que recebiam de volta faziam com que fosse menos pau e mais
humanos.
Um dia, estes bonecos de pau foram virando meninos de verdade.
Um por um, como se estivessem em um corredor em que você entra boneco e sai
menino. Depois de se transformar, alguns riam e diziam:
- Como eu era engraçado quando eu era um boneco!
Alguns choravam, depois de virar menino de verdade, cada um
deles seguiria um caminho e talvez não fossem mais se encontrar. Outros, não
conseguiam chorar, nem rir, se abraçavam e diziam o que haviam aprendido uns
com os outros, agradeciam por aquela experiência.
Mas do lado de fora do livro, tudo sorria: as paredes, as escadas,
os elevadores, os sofás, as mesas, as cadeiras. Até a piscina sorria.
É que de tudo fica um pouco e quando os bonecos se tornam
meninos de verdade, todas as coisas ganham um aspecto novo e sorridente.
(Este miniconto partiu da experiência do meu estágio na exposição "Pinóquio: uma Bela Arte" no Sesc Belenzinho. Algumas falas eu ouvi durante o processo, outras são do livro do Pinóquio, do escritor Carlo Collodi)
(Este miniconto partiu da experiência do meu estágio na exposição "Pinóquio: uma Bela Arte" no Sesc Belenzinho. Algumas falas eu ouvi durante o processo, outras são do livro do Pinóquio, do escritor Carlo Collodi)
Deste lugar
E essa timidez que chega como quem não quer nada, tomando conta do meu corpo e da minha voz, me deixando sem resposta diante de alguém que representa muitas coisas.
Não há o que fazer, eu sorrio meio boba. Talvez o meu corpo diga mais do que a minha fala.
Talvez o meu toque me represente. Talvez o meu corpo preenchendo o espaço do seu, venha a calhar.
A calhar com essa sensação louca, esse pedido louco do meu coração de não querer que este abraço acabe nunca.
Eu digo palavras que depois percebo serem repetitivas e sem criatividade.
A minha criatividade, a minha eloquência, o meu chão. Você levou com você.
domingo, 14 de outubro de 2012
Constatação.
Algumas pessoas devem estar tão acostumadas com elogios que dizer - Você é foda, eu te admiro - pode parecer um pleonasmo.
domingo, 7 de outubro de 2012
Síntese
Comecei a escrever em um diário que eu ganhei no meu aniversário de 6
anos. Quando eu tinha 12 anos comecei a escrever em um blog. E continuo
até hoje. Durante todo este tempo parei muitas vezes mas depois de
entrar no curso de Letras resolvi me aceitar. Aceitar que a escrita me
possibilita viver o que sem ela seria impossível. Meus pensamentos e
minha imaginação não cabem em mim, por isso, eu escrevo.
(Eu tenho um jornal. Em outro post conto sobre ele. Eu precisava de um perfil para o nosso site e foi muito difícil conseguir sintetizar minha relação com o ato de escrever. Este é o produto final que coloco aqui porque espero poder organizar este blog um dia.)
(Eu tenho um jornal. Em outro post conto sobre ele. Eu precisava de um perfil para o nosso site e foi muito difícil conseguir sintetizar minha relação com o ato de escrever. Este é o produto final que coloco aqui porque espero poder organizar este blog um dia.)
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Contradições
Era tão auto-suficiente mas tão auto-suficiente que além de se masturbar, lambia as próprias feridas.
Apesar disso, sentia-se só durante aquele momento do dia em que o sol vai embora e o céu fica misto de roxo com laranja.
Apesar disso, sentia-se só durante aquele momento do dia em que o sol vai embora e o céu fica misto de roxo com laranja.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Cabelo ao vento
Nunca mais fomos meninas boazinhas depois daquele dia.
Depois daquele dia vestir roupa preta virou regra de sobrevivência, insistir no esmalte vermelho questão de ordem, dançar o rocknroll sintoma de liberdade.
Sempre havia bebida. A cachaça e o vinho estariam sempre lá para recepcionar as cervejas que chegavam depois mas eram hóspedes bem-vindas naquela geladeira.
As pequenas coisas da vida existiam para salvar as nossas vidas. Os namorados, os amigos, os gatos, a indústria farmacêutica, as risadas que ecoavam dentro da madrugada.
E tudo isso - eu não costumava dizer - era chamado carinhosamente por mim de Poesia.
Depois daquele dia vestir roupa preta virou regra de sobrevivência, insistir no esmalte vermelho questão de ordem, dançar o rocknroll sintoma de liberdade.
Sempre havia bebida. A cachaça e o vinho estariam sempre lá para recepcionar as cervejas que chegavam depois mas eram hóspedes bem-vindas naquela geladeira.
As pequenas coisas da vida existiam para salvar as nossas vidas. Os namorados, os amigos, os gatos, a indústria farmacêutica, as risadas que ecoavam dentro da madrugada.
E tudo isso - eu não costumava dizer - era chamado carinhosamente por mim de Poesia.
domingo, 23 de setembro de 2012
Pequenas surpresas.
Naquele dia não queria ter dito tchau. Queria um tempo elástico e dilatado que durasse muito mais.
Queria ir jantar e beber algum drink cheio de simpatia batida com doçura. Queria ouvi-lo dizer qualquer coisa.
Ele chegou atrasado embora dissesse ter adorado conhece-la. Essa foi a primeira vez em que acreditou ter ouvido algo sério da parte dele.
Chegou ao pé do ouvido e disse - Adorei te conhecer. Falta de sensibilidade dela, quem sabe. Talvez ele já tivesse sido sério muitas vezes, ela quem nunca havia percebido.
A ambiguidade das palavras e gestos também era encantadora e diante isso, a seriedade ou falta dela, ficavam em segundo plano.
Aquele cara sabia muitas coisas. Inclusive fazê-la sorrir. Sem nenhum esforço.
Queria ir jantar e beber algum drink cheio de simpatia batida com doçura. Queria ouvi-lo dizer qualquer coisa.
Ele chegou atrasado embora dissesse ter adorado conhece-la. Essa foi a primeira vez em que acreditou ter ouvido algo sério da parte dele.
Chegou ao pé do ouvido e disse - Adorei te conhecer. Falta de sensibilidade dela, quem sabe. Talvez ele já tivesse sido sério muitas vezes, ela quem nunca havia percebido.
A ambiguidade das palavras e gestos também era encantadora e diante isso, a seriedade ou falta dela, ficavam em segundo plano.
Aquele cara sabia muitas coisas. Inclusive fazê-la sorrir. Sem nenhum esforço.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Maria Eduarda
Eu nunca vou esquecer da Maria. Quando chegou, Maria foi logo dizendo: - Oi, eu sou nova!
Depois ela estava no grupo que eu iria levar para visitar a exposição de arte. Quando eu disse meu nome, ela disse o dela.
Disse que nossos nomes eram parecidos e notei que o sotaque era diferente. A professora disse que ela era de Portugal.
Eu fiquei encantada, perguntei de onde ela era e ela disse "Sinos" mas por causa do último S não pude compreender.
Perto de onde, eu perguntei. Mira, Penafiel, Boelhe, Coimbra, Porto, Minho? Recitei todas as cidades que eu sabia, na verdade não conheço cidade nenhuma apenas sei os nomes de algumas universidades de lá.
E ela disse que ficava perto de Coimbra. Cu-im-bra.
Maria era a única que já tinha ido em uma exposição de arte. Ela disse que em Portugal tem exposições com quadros e esculturas.
No final do passeio, perguntei o que ela tinha visto na exposição daqui que não tinha lá. E ela disse: Mistério!
Em todos os momentos daquela 1h20 de visita tentei disfarçar que a criança mais interessante era a Maria.
E até quando a outra garotinha me contou ser filha de um chinês. Neste dia as crianças se juntaram para falar que me amavam.
Um amor de 1h20. Outras crianças passaram por mim e me amaram depois disso.
Ainda assim, eu nunca vou esquecer da Maria.
Depois ela estava no grupo que eu iria levar para visitar a exposição de arte. Quando eu disse meu nome, ela disse o dela.
Disse que nossos nomes eram parecidos e notei que o sotaque era diferente. A professora disse que ela era de Portugal.
Eu fiquei encantada, perguntei de onde ela era e ela disse "Sinos" mas por causa do último S não pude compreender.
Perto de onde, eu perguntei. Mira, Penafiel, Boelhe, Coimbra, Porto, Minho? Recitei todas as cidades que eu sabia, na verdade não conheço cidade nenhuma apenas sei os nomes de algumas universidades de lá.
E ela disse que ficava perto de Coimbra. Cu-im-bra.
Maria era a única que já tinha ido em uma exposição de arte. Ela disse que em Portugal tem exposições com quadros e esculturas.
No final do passeio, perguntei o que ela tinha visto na exposição daqui que não tinha lá. E ela disse: Mistério!
Em todos os momentos daquela 1h20 de visita tentei disfarçar que a criança mais interessante era a Maria.
E até quando a outra garotinha me contou ser filha de um chinês. Neste dia as crianças se juntaram para falar que me amavam.
Um amor de 1h20. Outras crianças passaram por mim e me amaram depois disso.
Ainda assim, eu nunca vou esquecer da Maria.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Outras coisas da vida.
Eu estou apaixonada por um carinha aí. O nome dele é Antonio.
Antonio Lobo Antunes. Ainda não nos conhecemos muito bem mas acho que quando
isso acontecer de fato, nos daremos muito bem. Sei que ele foi pra guerra, sei
que ele é médico e sei que ele mora num lugar lá longe chamado Europa. Muitas
pessoas falam sobre ele e até escrevem sobre ele! Outras, menos importantes tem
que fazer pesquisas sobre ele para ganhar nota na graduação. E outras nem sabem
que ele existe. Ouvi dizer que ele toma gelados depois das tardes de autógrafo
que ele faz. Bom, pelo menos foi isso que eu li em um livro que ele mesmo escreveu. Esqueci de mencionar que ele é
escritor, por isso o mundo dele é sensível e todas as imagens tornam-se
palavras. Na verdade nosso amor nunca acontecerá realmente. Mas eu também
escrevo e neste caso, todos meus amores impossíveis tornam-se possíveis, ao
menos aqui.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Outra estrada
Aquela garota me deixou. Me trocou por outra que julgou mais interessante que eu, talvez.
Me largou febril e doente em um quartinho sujo de hotel no México. Naquele dia agonizei e muitas foram as coisas que passaram pela minha cabeça.
Um dia ela volta, eu pensei.
E voltou.
Mas eu já estava em outra.
Me largou febril e doente em um quartinho sujo de hotel no México. Naquele dia agonizei e muitas foram as coisas que passaram pela minha cabeça.
Um dia ela volta, eu pensei.
E voltou.
Mas eu já estava em outra.
sábado, 26 de maio de 2012
Hendrix
Eu acordei de mau humor hoje, meu querido. Eu estou que não me aguento.
Não, não é uma tpm. Isso é coisa da modernidade.
Eu não teria capacidade de perceber que os peitos incham e as espinhas aparecem caso não soubesse quando entro naqueles dias. Não sei quando isso acontece, portanto. Sei que a cota deste mês já foi. Então, gosto mais de ser "de lua" do que ter uma "contratempo" moderno.
Acordei cedo mais uma vez, darei conta da pilha de louça enquanto escuto teus acordes, tua voz.
Obrigada por vir me visitar hoje.
Estamos passando por tempos difíceis.
*Inicio aqui a nova série deste blog com esta republicação do meu blog pessoal.
Não, não é uma tpm. Isso é coisa da modernidade.
Eu não teria capacidade de perceber que os peitos incham e as espinhas aparecem caso não soubesse quando entro naqueles dias. Não sei quando isso acontece, portanto. Sei que a cota deste mês já foi. Então, gosto mais de ser "de lua" do que ter uma "contratempo" moderno.
Acordei cedo mais uma vez, darei conta da pilha de louça enquanto escuto teus acordes, tua voz.
Obrigada por vir me visitar hoje.
Estamos passando por tempos difíceis.
*Inicio aqui a nova série deste blog com esta republicação do meu blog pessoal.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Sobre a maturidade.
Eu já fui uma grande revolucionária, também. Minha mãe trocava a minha fralda, trazia o tetê, ligava a tv no desenho e quando algo não estava bom eu reivindicava aos berros mais chocolate no toddynho. Mais tarde, eu pedia paralisação imediata, esse era o meu único instrumento de luta, então, eu abria a porta e gritava: - Pronto, mãaaae!. E aí ela vinha me limpar. Quando ela não aceitava minhas condições de revolução, eu fazia piquete: Espalhava todos meus brinquedos pela casa. E eu ficava bravinha quando ela pedia (não tão gentilmente) para que eu guardasse tudo. Eu também gritava, batia as portas e fazia minha liberdade de expressão na parede. Se trancou no quarto com o papai? Eu chuto a porta e ocupo.
Não gostava da escola, fazia birra e batia o pé. Eu dormia nas aulas, a mensalidade era eles que pagavam afinal de contas.
Meus professores eram todos uns assalariados, burgueses, neoliberais e pós modernos.
Hoje em dia fazer a revolução tornou-se difícil: Tenho que pagar por todas as revoluções feitas por mim.
(Achei este texto perdido na área de trabalho do computador, não ia publicar porque ele é muito diferente dos outros textos deste blog e acho até que destoa um pouco. Contudo, um dia, vou separar os textos em páginas, dividindo-os por gêneros e assuntos, então, a diversidade também é bem-vinda.)
Cada vez menor.
Uma garoa fina que insiste em cair nesta manhã inibindo a organização de meus tortuosos pensamentos.
Ela dorme em meus braços, com a respiração ofegante, sem se importar com mais nada.
Os carros derrapam na aquaplanagem do fim da ladeira fazendo barulho.
Um dia como todos os outros dias, tantos outros dias.
Assim sempre, sempre assim, assim tem sido.
Não é um motivo para chorar.
Depois chega o sol.
Assim espero.
É, espero.
Sorrio.
(A estrutura deste texto é em escada, ou seja, ela começa com linhas maiores e vai diminuindo como se fossem degraus. Aqui não foi possível deixar com esta configuração)
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